1ª Edição Ágora de Prometeus - Janeiro 2018

1ª Edição Ágora de Prometeus - Janeiro 2018
Categoria - Sociedade
Artigo de João Rodrigues
#agorasociedade
#olhodeprometeus

Burguesia

O léxico enquanto palco da luta de classes

É com algum assombro que constatamos que hoje, quando a consolidação do modo de produção capitalista é global e quase absoluta, o termo «burguesia» praticamente desapareceu do léxico corrente e encontra-se remetido ao reduto académico, em que é usado essencialmente para fazer alusão à classe dos mercadores e comerciantes, que surge na Europa a partir do séc. XI.

Uma reflexão um pouco mais profunda sobre o tema permite-nos concluir que a eliminação deste termo em específico, e de outros que também servem para definir determinadas categorias sociais, não só não é surpreendente como traduz, por um lado, uma táctica da classe burguesa, e, por outro, indicia que vivemos o apogeu do seu domínio da sociedade e, portanto, das relações sociais.

Quem tenha lido o romance distópico 1984, de George Orwell, lembrar-se-á de que a criação da novilíngua, levada a cabo pelo Estado, tinha como objectivo erradicar o crimepensar (ou seja, o pensamento subversivo dirigido ao regime, personificado pela figura do Grande Irmão). Esse processo consistia em eliminar palavras ou substituí-las por outras. Sem um léxico que permita analisar e criticar a sociedade – objecto -, o pensamento revolucionário – sujeito - torna-se impossível.

Os trabalhadores são hoje «colaboradores»; a burguesia é hoje um corpo de «empreendedores»; o espectro político da esquerda fala dos «mais ricos» e dos «mais desfavorecidos». A subsidiação da burguesia é o «apoio ao desenvolvimento económico e ao empreendedorismo»; o Estado burguês é o «Estado social»; a luta de classes é o «conflito social» ou «laboral». Os exemplos são inúmeros. O uso corrente, hegemónico, desta terminologia, é próprio de uma sociedade para quem o domínio da burguesia é um dado adquirido - o «fim da história» -, e o centro de gravidade das dinâmicas sociais está no combate político entre os representantes de ideologias que propõem diferentes abordagens à gestão do Estado burguês e, portanto, de reprodução da sociedade capitalista. Os liberais defendem um Estado focado no «apoio ao desenvolvimento económico e ao empreendedorismo», enquanto a esquerda reformista preconiza soluções que evitem o «conflito social», através da transferência de parte do produto social dos «mais ricos» para os «mais desfavorecidos», mediada pelo aparelho estatal.

O termo «burguesia» é essencial enquanto instrumento lexical, teórico, dos movimentos subversivos, sejam comunistas, socialistas libertários ou anarquistas, na medida em que lhes permite definir material e objectivamente uma classe social, com base no seu papel nas relações de produção. Burguês é aquele que por intermédio do capital, cujo direito de propriedade lhe é assegurado pelo Estado de classe – através dos aparelhos repressivos e ideológicos -, se apropria do trabalho alheio, explorando-o. A própria definição de burguesia, aponta já, para a existência de outra classe – a dos explorados. Os explorados – e/ou a sua vanguarda - apesar de poderem estabelecer determinadas alianças tácticas com este ou aquele sector da classe burguesa, ou das camadas intermédias, adquirem assim uma ferramenta revolucionária que lhes aponta objectiva, material e infraestruturalmente o inimigo estratégico e, inerentemente, o seu Estado de classe, reprodutor das relações de opressão.

João Rodrigues

Olho de Prometeus:

“Do latim “burgesis” e do Francês “bourgeoisie”.

Os burgueses eram os habitantes dos burgos, normalmente comerciantes de roupa, especiarias, jóias, etc. Os burgos eram pequenas cidades da Idade Média, com muros, que ofereciam protecção contra a Nobreza, detentores do poder, e a Igreja, que considerava pecado o comércio porque tinha como objectivo o lucro.

Entre o fim da ordem feudal absolutista, os Descobrimentos, a Revolução Industrial, a Guerra de Independência Americana e a Revolução Francesa uma nova classe social consolidou-se: a Burguesia. Perante a consolidação do domínio mundial da Burguesia, o poder aristocrático (Reis) decidiu aliar-se. A Burguesia passa, então, a participar nas decisões do poder político das cortes e assembleias.

Em Portugal, a Burguesia foi pouco numerosa até aos séculos XIV e XV. Foi na Dinastia de Avis que começou a ganhar influência política e económica, principalmente por ter apoiado D. João I na crise de 1383-85.

Ágora de Prometeus

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