Diria que Portugal é estruturalmente racista?

Esta quinta-feira, dia 8 de Fevereiro, foi criada uma sondagem que perguntava:
Diria que Portugal é estruturalmente racista?

Os resultados da sondagem pouco mais do que 24 horas depois de criada havia chegado a 275 pessoas mostrando que cerca de 90% defendia que SIM, Portugal É estruturalmente Racista.

Mas fica a questão: O que quer dizer “Estruturalmente Racista”?

Esta questão é fundamental para se poder responder a uma pergunta como esta e perceber a gravidade da declaração.

Silvio Almeida, filósofo de direito, explica bem o que é e como funciona o Racismo Estrutural - no caso no Brasil, mas que facilmente pode ser transplantado para a realidade cigana ou negra em Portugal (a ser feito em futuros artigos) ou noutro País qualquer - e que pode ser consultado em baixo. Vai se tentar selecionar algumas partes da entrevista, mas recomenda-se a visualização da mesma na integra.

“Quando se pensa em Racismo tende-se em pensar em violência directa sobre uma pessoa”, isto é, tende-se a pensar no Racismo no foro conjuntural - é quando se diz que é coisa de um indivíduo com mau carácter, de alguém ‘ignorante’ ou que sofre de alguma patologia, ou até um grunho e nada mais.

Contudo, na verdade o Racismo é estrutural. Está na estrutura do Poder. É um sistema que normaliza práticas racistas sem as considerar como tais ou como fruto de uma estrutura. Silvio diz-nos ainda: “não é que tenha que ser aceite, mas é uma forma de racionalidade, de normalização, de compreensão das relações”. Isto é, é todo o tipo de motivações que ditam ações conscienctes e inconscientes.

Quando se fala de Racismo estrutural é importante referi-lo em três pontos :
Economia
Política
Subjetividade

“Pontos em que os indivíduos são constragidos e que fazem parte da própria dinâmica em que vivem diariamente.”

Silvio Almeida mostra-nos como o Racismo estrutural funciona, mesmo sem necessidade de Leis que visem explicitamente a perseguição de pessoas não brancas , por exemplo, através do funcionamento dito normal do sistema tributário brasileiro. Este reproduz as desigualdades sociais que afectam mais as mulheres negras, justamente as que ganham menos e que pagam mais. E mostra-nos como se estabelece “uma relação estrutural entre baixo salário das mulheres negras, a constituição do sistema tributário e a falta de representatividade”.

“As prórpias mulheres negras não se tornam corpo social a ponto de se tornarem política pública”.

E isto por sí só vem da própria estrutura que normaliza que os corpos negros não apareçam como relevantes na criação de políticas. Silvio Almeida diz-nos ainda que juntando tudo isso consegue-se perceber outros dados que são assutadores, por exemplo:
Entre 2003-2013, a violência contra a mulher branca recuou 9.8%, em compensação a violência contra a mulher negra aumentou 54.5%..

O Racismo é “estrutural e estruturante das relações sociais e da formação do sujeito, verifica-se isso quando é tão comum não haver mesmo entre as pessoas que não aceitam essas violências qualquer acção de política efectiva para se voltar contra isso” - i.e., a sociedade naturaliza a violência contra pessoas negras.

Mas a estrutura faz mais do que isso, ela constrói a condição do branco, ou como nos diz o filosofo de direito:
“Outro efeito do Racismo estrutural é ainda na naturaliação da condição da pessoa branca - Branquitude”

Ao olhar para os espaços de poder e de decisão é comum ver somente pessoas brancas a ocupar esses espaços, e isto não se contesta, encara-se como “normal” - ninguém se choca com a sobrerepresentatividade branca nestes lugares. No entanto, se pela primeira vez na história surge alguém não branco nesses ambientes, rapidamente toda a gente nota a presença do negro, do cigano, do não branco. Por outras palavras, ninguém contesta ou sequer repara quando a pessoa não branca está ausente dos espaços de privilégio. Os partidos são só de pessoas brancas ou com raras e singulares excepções. E os Governos? E as assembleias? Não só a nível do Poder Central, mas local também. E quem são os que estão nas Universidades? Nos chamados “melhores empregos”? Médicos, engenheiros ou juízes? No entanto, se surge alguém ‘inesperado’, uma ministra negra, um secretário de Estado cigano, toda a gente repara no elemento ‘estranho’ na sala. Ver artigo "É preciso descolonizar Portugal".

No futuro outras questões relativas à existência/funcionamento do Racismo em Portugal serão colocadas, estando por vir a questão do Racismo Institucional.

via Iniciativa Cigana - Desta vez não é um cravo é uma cerveja

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