Manif da Função Pública
"Não tenho medo. O que é que tenho a perder?"
Por Paulo Moura
As palavras de ordem da manifestação de ontem eram gritadas com pouca esperança. Antes raiva.
Retirado de http://jornal.publico.clix.pt
À frente vêm os tambores, mais à frente posicionam-se os agentes da polícia de intervenção, mas o ânimo dos manifestantes não é de violência nem de festa.
"Vale a pena vir aqui, nem que seja para mostrarmos que não estamos contentes", explica Lurdes Rodrigues, de 43 anos, assistente operacional (ex-auxiliar de acção educativa) na Escola Fernando Casimiro, em Rio Maior.
"Há quatro anos pediram sacrifícios, por causa do défice. Eu estava motivada para colaborar. Agora não".
Já no Terreiro do Paço, um grupo de calceteiros do Gerês lança insultos para a porta do Ministério das Finanças. "Puta que pariu o Estado!", grita um. Calceteiros não: assistentes operacionais. "Mudou para um bom nome", admite outro. "Mas as funções são as mesmas". Um terceiro assistente operacional aproxima-se. "Eu era pedreiro. Agora não temos profissão". O primeiro conclui: "É tudo igual. Ou melhor, há uma diferença: quem trabalha ganha pouco; quem não trabalha ganha muito".
Alfredo Vieira Lisboa, de 51 anos, calceteiro em Vila Verde, perdão: assistente operacional, ganha 487 euros, é casado, tem três filhos e uma mulher desempregada. "Não tenho carro, não tenho nada". O que lhe vale é que não paga casa. Como conseguiu isso? "Porque vivo num barraco. Nem telhado tem". Construiu-o ele próprio, num terreno "oferecido". "Agora estou com problemas para legalizar aquilo". Outro problema é que tem os aumentos de salário congelados.
"Pá, tudo bem, está certo que congelem. Mas aos tipos que ganham mais de, por exemplo, mil euros", diz um colega.
"Dantes éramos aumentados de quatro em quatro anos. Agora é de 10 em 10, se o chefe gostar de uma pessoa. Mas o chefe nem nos conhece", diz um. "Não sei como faz a avaliação".
O outro explica: "Acho que o encarregado fala lá com o engenheiro, ou o caralho".
"É mais cabritos e carneiros", emenda Alfredo. "Lá no Norte é assim. Conheço um que deu três presuntos. Mas o encarregado disse logo: o porco era aleijado? Só tinha três pernas?"
"Queria quatro presuntos, o filho da puta!"
"Eu não lhes dou nada!", declara Alfredo. "Eu sou comunista. Desde os 16 anos. Desde o 25 de Abril!" Bate com a mão no peito.
"Olha que isso pode prejudicar-te, pá!"
"Não prejudica, porque eles não sabem. Bem, agora vão saber, não é? Mas não tenho medo. O que é que tenho a perder?"
"Lá isso é verdade", admite o outro, rendido à lógica. "Ganhares menos do que ganhas é impossível".
António Pereira, de 42 anos, calceteiro há 17, ganha 570 euros, tem uma horta com batatas, mas uma casa para pagar. E duas filhas, uma com oito anos outra com 14. Esta última é que é o problema. "Felizmente tem capacidades. Está no 9.º ano e daqui a três vai querer ir para a faculdade. Mas eu já lhe disse que, actualmente, não pode ir. Não tenho possibilidades".
António tem seis irmãos. Trabalharam todos na agricultura, quando crianças. "Ela não sabe o que nós passámos", diz ele. "Nós comíamos côdeas de pão. Elas agora é só Chocapic com leite. Que nós pelos filhos fazemos tudo. Nós fomos vividos na terra dos escravos. Elas foram vividas na terra das flores. Este é que é o meu maior problema. Porque a minha filha de hoje para amanhã vai dizer: "Eu não pude estudar, porque o meu pai foi um caralho"".
Mas ainda faltam três anos. "Até lá, as coisas podem mudar. Isto é uma luta. É por isso que estou aqui, com 500 quilómetros no papo, mais 500 para voltar. Também se a gente não luta..."


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jiang
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